domingo, 6 de junho de 2010

Trajetória das relações públicas no Brasil

RELAES PBLICAS E LOBBY

Antes de resumir a trajetória das relações públicas no país, seria bom explicar por que exatamente escrever sobre o tema. Para se entender o presente e, talvez prever tendências do futuro, é imprescindível que se conheça o passado. Da mesma forma, conhecer a trajetória das relações públicas no Brasil pode causar reflexões acerca da situação atual da profissão e talvez explicar o motivo de algumas coisas.

No começo do século XX, o Brasil passava por um período de desenvolvimento, atraindo indústrias estrangeiras. Um dessas indústrias era a companhia Light, responsável pelo marco inicial das relações públicas no Brasil com a criação de um departamento de RP, em 1914. A criação foi fruto de uma necessidade da empresa de cuidar do seu relacionamento com a imprensa e com opinião pública. O chefe de departamento da Light era ninguém menos do que o “patorno” da profissão, Eduardo Pinheiro Lobo.

Foi apenas na década de 50 que a profissão ganhou maior destaque, isso se deve ao novo contexto vivido pelo país. Pra começar, a democracia foi restituída em 1946, isso é fundamental, pois é difícil observar a profissão exercida com ética em um lugar onde há controle e manipulação da população, como se observa nos governos ditatoriais. Vale ressaltar também que o perfil desenvolvimentista do governo da época impulsionava a vinda empresas multinacionais para o país, o que fortaleceu a necessidade de se manter um setor de relações públicas. Além disso, o desenvolvimento de novos meios – mídia impressa e eletrônica- proporcionou a valorização da comunicação como um todo, o que também motivou estudos de audiência para conhecer os efeitos dos anúncios. Em 1952 foi fundada a primeira empresa de relações Públicas nacional, a Companhia Nacional de Relações Públicas e Propaganda e, dois anos depois, em 54, a ABRP – Associação Brasileira de Relações Públicas foi criada.

Nos anos 60, o governo brasileiro passou pela ditadura militar e na mesma década ocorreram vários fatos para as relações públicas. Como já foi mencionado anteriormente, uma ditadura representa certo risco para o exercício da profissão e, para se manter, ela acabou se associando à propaganda ideológica do Governo, com a Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP). A atuação desta assessoria foi vista como agressiva e, visto que o Brasil vivia um momento turbulento, a imagem da AERP foi muito prejudicada. Esta época contribui para conformar uma impressão negativa das atividades de relações públicas, ligando-as a manipulação e formação da opinião pública. Ainda na década de 60, surgiram as primeiras faculdades de RP e, em 1967 a profissão foi regulamentada. Ela tornou-se uma atividade que só poderia ser exercida mediante o bacharelado em comunicação social com habilitação para relações públicas, gerando algumas discussões.

Mediante a regulamentação da profissão, proliferaram na década de 70 vários cursos e escolas de comunicação. Com isso, as primeiras obras brasileiras da área foram editadas, ainda que a maioria dos cursos criados se pautasse nas escolas tradicionais de jornalismo. Nessa década também foram criados o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de RP. Com o país ainda sob o regime militar, a AERP continuou atuando, juntamente das outras assessorias de relações públicas do governo federal: AIRP, ARP e Secom. Elas ainda estavam vinculadas a propaganda ideológica, consolidando ainda mais para a profissão de RP a mesma imagem negativa da década de 60.

Com os anos 80 vieram grandes transformações tanto para o país, como para as organizações e para a as relações públicas. Houve a abertura política e processo de redemocratização, possibilitando a volta da liberdade de imprensa, o que fez com que as pesquisas e produção científica na área da comunicação aumentassem. Nesta década também foi lançada uma campanha pela valorização dos profissionais de relações públicas.

Foi na década de 90 em que o fenômeno da globalização se iniciou, junto ao rápido desenvolvimento de novas tecnologias, principalmente nos meios de comunicação, conferindo importância a área, como não foi diferente no Brasil. No âmbito coorporativo e institucional, principalmente, a comunicação foi valorizada, o que incluía as funções de RP. Foi necessário repensar as relações públicas, inseridas nesta nova era, a profissão precisava ter seu papel redefinido perante a sociedade, sobretudo com o crescimento das outras áreas da comunicação. Para tanto, foi constituído um parlamento nacional, como iniciativa do Conselho Federal e Regionais (SP e PR) de RP, para revisar a regulamentação da profissão feita em 1967.

Até hoje várias discussões a cerca das relações públicas são levantadas. A questão da sua regulamentação, que foi feita prematuramente em 67, continua em pauta, principalmente após a queda do diploma de jornalismo. Com o aumento de empresas privadas, sabemos que as organizações precisam assumir mais do que nunca uma função social, as relações públicas ganham com isso uma dimensão política imensa e de extrema importância para a sociedade. Entretanto, sabemos que os profissionais de RP ainda lutam com a imagem de “manipulador” configurada durante o governo militar, e buscam o reconhecimento e valorização perante a população, que desconhece, como veremos em outros posts do blog, a profissão. Esses são apenas algumas das discussões que permeiam á área de RP e que tiveram gênese na própria trajetória da profissão no país. Fica evidente que as relações públicas estão ligadas ao contexto econômico, cultural e político em que estão situadas. O que será que esse mundo globalizado, com empresas em rede e cada vez mais possibilidades de conexão reserva para o futuro das relações públicas? Certamente podemos tentar identificar tendências, mas isso é tema para outro texto...

Referências:

KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Relações públicas e modernidade: novos paradigmas na comunicação organizacional. São Paulo: Summus, 1997

Kunsch, Margarida, História das Relações Públicas no Brasil: Retrospectiva e Aspectos Relevantes IDADE MÍDIA, 120 São Paulo, ano I, n. 2, nov/2002).

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